Pular para o conteúdo principal

Mesmo sentimento

Outro dia estava lendo a coluna do Paulo Sant’Ana e me identifiquei com aquilo que ele escreveu. Eu também não consigo me empolgar com os jogos da Seleção. Assisto e até torço para que vença os jogos, mas se perder não é nenhum fim do mundo. Não vou chorar nem ficar triste. E se vencer não vou sair por aí com bandeira na mão comemorando.

Mas minha indiferença não tem a ver com meu gremismo ou raiva por pelo fato da seleção não ter convocado jogadores gaúchos em outros tempos. Se existe algum motivo se deve a todas as politicagens que tomaram conta da CBF e do futebol brasileiro. Ou será que tem alguma pessoa que não saiba que algumas convocações são para atender a interesses de empresários de jogadores? Não é nenhuma teoria da conspiração. Rola sim muito dinheiro por traz das convocações. São interesses de empresários, patrocinadores e sabe-se lá mais quem. Mas e eu com esses números, pode argumentar algum torcedor incauto. Sei lá, caum caum (cada um, cada um), eu me importo e isso tira o brilho da coisa. Não me entusiasma e ponto final.

Indiferença dominical – Paulo Sant’Ana

Vou fazer um desabafo, que não sei se interessa aos leitores. Mas eu guardo este segredo comigo há muito e agora estou disposto a revelá-lo.

Acontece que não torço pela Seleção Brasileira. Também não seco a Seleção Brasileira, só não torço por ela.

A Seleção Brasileira não me entusiasma como a vejo entusiasmar a tantos brasileiros.

Jamais faria um churrasco em minha casa para receber amigos e torcer pela Seleção Brasileira. Não seria um motivo forte para eu fazer um churrasco um jogo da Seleção Brasileira.

Neste domingo, vejo Brasil x Costa do Marfim com a mesma indiferença com que assisti nesta Copa a Argélia x Eslovênia. Assisto com interesse, como tenho assistido a São Paulo x Palmeiras, Flamengo x Fluminense, mas sem nenhum entusiasmo, sem torcer para nenhum dos times, nem que um deles seja a Seleção Brasileira.

Em suma, sou amante do futebol, gosto desde criança de assistir a esse esporte, mas torcer por time de futebol, aí é outra história, só torço mesmo pelo Grêmio.

Influi sem dúvida nesta minha indiferença pela sorte da Seleção Brasileira o meu gremismo: sofro do mal da paixão única, penso até que a minha mente não tolera que eu torça pelo Brasil porque seria uma espécie de traição ao Grêmio, sei lá…

Que ninguém me acuse de ser impatriótico por isso. Amo o Brasil, conheço todos os seus hinos. Se o Brasil entrasse em guerra e me aceitassem, eu pegaria em armas para defender a pátria que aprendi a amar no grupo escolar da minha infância.

Mas não sinto qualquer afinidade pela definição do grande Nelson Rodrigues para a Seleção Brasileira: a pátria de chuteiras.

Já trabalhei em muitas Copas, mas nunca torci pelo Brasil, pouco me importei que o Brasil as tivesse perdido ou ganho. Nunca derramaria uma lágrima por uma derrota do Brasil em Copa do Mundo, assim como nunca entrei em euforia, sequer alegria, quando ganhamos uma Copa.

Eu tenho certeza de que na origem desta minha indiferença pela Seleção Brasileira está o fato de que, quando eu era jovem, a Seleção Brasileira nunca convocava jogadores gaúchos.

A Seleção Brasileira era, na minha juventude, uma panelinha entre Rio e São Paulo. Desprezava com prepotência o futebol gaúcho e não convocava os nossos jogadores.

Naquele tempo, por isso, eu sentia ódio da Seleção Brasileira. Hoje não sinto mais ódio, os gaúchos seguidamente jogam na Seleção, agora mesmo na seleção do Dunga tem dois gaúchos: Maicom e Michel Bastos. Até o treinador da Seleção Brasileira hoje é gaúcho, o Dunga.

Então, não sinto mais ódio, mas não torço. Não torço. Não consigo torcer.

Vocês podem não acreditar, mas eu assisto a Brasil x Costa do Marfim com a mesma voltagem de emoção com que assistiria a Alemanha x Argentina, um grande jogo, que me atrai intensamente porque sou aficionado pelo futebol. Mas um jogo que não me toca no coração. Nada tenho com ele, assim como tenho tudo em qualquer jogo do Grêmio, onde, aí, sim, a paixão me faz rir ou chorar. Eu fico doente quando o Grêmio perde, eufórico quando o Grêmio ganha.

Eu sempre achei uma lástima o Grêmio não disputar a Copa do Mundo.

E, para finalizar: muitos gaúchos já me disseram que sentem isso exatamente que eu sinto pela Seleção Brasileira.

* Texto publicado em 19/06/2010,  na página 39 de Zero Hora dominical.

Comentários

  1. Eu tmb não tenho mais a mesma empolgação por assistir aos jogos da seleção. Gosto de assistir mais aos jogos das outras seleções!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Aníbal - Carência (1989)

Aníbal foi um cantor que surgiu em 1989 e, aparentemente, lançou somente um disco. Foi um som que marcou minha adolescência e traz lembranças da terrinha (Ijuí/RS), dos amigos. Para quem quiser conferir, pode baixar o arquivo no 4Shared ( clique aqui ).  

Se a vingança apagasse a dor que eu senti

Dos Margaritas–Os Paralamas do Sucesso Sabe aqueles dias em que o tempo voa e tu nem percebe? E tu sai do trabalho e a correria continua: tomar um banho tcheco tcheco, uns goles de café, duas ou três mordidas no pão e ir correndo para a faculdade?! Dei um beijo na Frida e saí, com certa pressa, para não me atrasar para aula. Entrei no carro e falei para meu amigo imaginário : "cara, tô precisando ouvir uma música e dar uma relaxada". Enton coloquei um cd dos Paralamas do Sucesso - Severino. Perfeito. Fui cantarolando todas as músicas até chegar na Feevale e isso acalmou a alma e deu uma carga na bateria (60%, mas em pé!). Esse disco tem história. Foi o primeiro cd que comprei, nos idos anos 90. “Grande coisa”, alguém deve estar pensando. Mas só quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Tá bom, vou desenhar: naquela época tocadores de cd ainda eram novidade, mal tinham chegado no Brasil e o aparelho não custava barato. Mas o tal cd estava em promoção nas lojas Amer...

Conversações com Humberto Gessinger

  Cara, nem lembro como cheguei lá, mas quando dei por mim, estava parado na sala do apartamento do Humberto Gessinger, tomando chimarrão e batendo papo como se fosse meu camarada há anos. O apartamento era simples, mas confortável, e meus olhos vidrados captavam cada detalhe com muita atenção. Na época da adolescência, no auge da minha adoração pelos Engenheiros do Hawaii, eu tinha mil perguntas e montava diálogos na cabeça, tentando imaginar as respostas. E agora, anos depois daquela fase, eu não tinha mais perguntas, e ele não tinha mais respostas. Trocamos ideias sobre coisas do dia a dia, e eu compartilhei um pouco da minha trajetória como fã. Meu primeiro show da banda foi lá nos anos 90, em Cruz Alta/RS. Do show em si, lembro muito pouco, quase nada na verdade. O que realmente marcou foi o retorno para casa. Após o show, tentamos em vão chegar ao camarim. Resignados, mas satisfeitos, fomos caminhando até a rodoviária da cidade, onde pegaríamos o primeiro ônibus para Ijuí...